sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Dª Célia

Em 1972/1973, por indicação do meu ortopedista, a minha vida mudou e descobri a minha primeira paixão: a dança ( a importância que um ortopedista pode ter na vida de uma pessoa!). Não sei exactamente como fui dar especificamente à Escola de Ballet Clássico Espanhol Célia Neves no Centro Espanhol, mas o que é facto é que foi lá que, com Dª Célia como professora, me iniciei no ballet clássico, flamenco e danças populares espanholas. Nessa altura ainda era o seu marido - major José Neves- que acompanhava as aulas ao piano. Mais tarde as aulas passaram para a casa da Juventude da Galiza, na Rua da Madalena.
Foram anos extraordinários e muito felizes. Dª Célia não era "pêra doce" e quando o seu mau génio vinha ao de cima era melhor não estar perto. Mas era um aprofessora extraordináriaFoi com Dª Célia, e com os seus espectáculos, que pisei pela primeira vez o palco, primeiro no Monumental (o original!) e depois no Maria Matos. Era tanta a emoção. A maquilhagem , os penteados, os fatos. Ah, os fatos! Desenhados pela própria Dª Célia eram o stress das mães não só para arranjarem tanto tule, veludo, rendas, lantejoulas, cetins, mas também quem os executasse. Já para não falar do orçamento, que não era brincadeira.
Não sei porquê mas hoje lembrei-me dela. Obrigada Dª Célia.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Paula Rego

Há quase 20 anos tive oportunidade de adquirir esta gravura da Paula Rego, de quem sou fã desde a primeira vez que vi os seus quadros a pastel.
Children and their stories
Para mim foi, na altura, um esforço financeiro razoável mas, o prazer que me dá é "priceless".

"...para encontrarmos o nosso caminho para onde quer que seja, temos sempre de encontrar a nossa própria porta de entrada, tal qual a "Alice no País das Maravilhas". Paula Rego

Sei que a sua estética é violenta, rude, intensa. Mas, quando olho para seus quadros, com todos os seus fantasmas e sonhos, estes tornam-se histórias vivas e emocionantes. É como se as personagens despertassem e tudo estivese a acontecer ali, uma e outra vez.

'In her graphic work, as in her painting, Rego is a great storyteller who both persuasively and subversively seizes you at the first encounter, and then keeps a relentless grip on your mind and senses until she has finished her complex, infinitely subtle and reverberating tales.'

A construção da “Casa das Histórias e Desenhos Paula Rego”, um projecto do arquitecto Eduardo Souto de Moura, começou esta Segunda-feira em Cascais e prevê-se que esteja concluída até ao final do ano.


Vai ter como principal núcleo expositivo o importante acervo de pinturas e gravuras da autoria de Paula Rego e Victor Willing doado em Agosto de 2006 pela autora à Câmara Municipal de Cascais, entre outras peças elaboradas em suportes mais originais, no conjunto da obra da pintora, como a tapeçaria de grandes dimensões que tem por base a obra “Alcácer Quibir”, um dos raros trabalhos de Paula Rego que passou a suporte têxtil.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Natália Correia

Foi-me preciso descobrir que:

a lógica é a ciência de gerir os rendimentos da estupidez;

os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;

as pastas dos executivos levam dentro aranhas para urdirem as teias que nos imobilizam;

os militantes de todos os partidos têm pele de camisas enforcadas;

a família é um cardume de piranhas ao redor da carcaça de uma vaca sagrada;

a sociologia é uma completa falta de humor perante a decadência;

os gestores destilam um suor frio que nos constipa;

as nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se;

as esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis;

o socialismo é um estratagema para negar aos exploradores o direito ao desaparecimento;

o liberalismo é uma manha do Estado para forjar algemas com a liberdade;

os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava;

sendo a educação a providência dos imbecis que são em maior número,o mundo está imbecilizado pela educação;

o sistema é a creche da debilidade mental e a vala comum da inteligência;

a economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro;

dos vencidos não reza a história porque se renderam à razão,

para concluir que:

chegou a hora romântica dos deuses nos pedirem a desobediência.

Faço-lhes a vontade.

A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar, procure-me entre o riso e a paixão.

1983

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

And the Oscar didn´t go to...


«Haverá Sangue» («There Will Be Blood») conta a história de Daniel Plainview, um explorador de petróleo do começo do século XX,um herói maldito e o centro de gravidade, a força motriz e o buraco negro do filme, uma personagem tão fascinante como repugnante, capaz de afecto genuíno pelo filho ao mesmo tempo que expressa o seu absoluto desprezo pela humanidade: "Odeio a maioria dos homens. Só quero ser rico o suficiente para não ter nada a ver com eles”.

O seu conflito com Eli Sunday, auto-nomeado pregador evangélico personifica o combate entre o “material” e o “espiritual” e o terrível papel do ódio como paradoxal e perturbante força criativa.

Daniel Day-Lewis, numa interpretação genial que, a ele sim, lhe valeu o Oscar, é literalmente invadido fisica e fisionomicamente pela personagem e pela sua obsessão. Daniel Day-Lewis interpreta Plainview como uma força telúrica, vital, mas com um défice fatal de humanidade. Ao som da banda sonora (excelente, aliás) de Jonny Greenwood (guitarrista dos Radiohead), Day-Lewis enche, assombra, monopoliza cada plano do filme. A sua tensão é a nossa tensão, numa osmose permanente de sensações e sentimentos.

«Haverá Sangue» já foi definido como um filme sobre o papel primeiro construtivo, e depois destruidor, das forças do dinheiro e da religião na Califórnia. Mas Paul Thomas Anderson sugere que essas forças já nasceram tortas devido às falhas morais daqueles que as personificam, e que tudo aquilo que originarão - negócios, comunidades, igrejas, uma mentalidade, uma economia - estará manchado desde a primeira hora.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Impressing the Czar

Royal Ballet of Flandres
Coreografia William Forsythe

Que bela e emocionante noite.

Na primeira parte, Potemkins undterschrift, passa-se em revista toda a história da arte e do bailado clássico, desde a renascença até aos dias de hoje. Tendo sido, para mim, a parte mais difícil, até pelas imensas referência que contém, brindou-nos logo com a fantástica técnica e virtuosismo e talento dos bailarinos.
Logo a seguir, o vertiginoso, requintado, fabuloso, genial In the middle of somewhat elevated. Acho, que por momentos, parei de respirar, como se a cadência da respiração pudesse, de alguma forma, perturbar aquele momento de elevação. Perfeito, perfeito, perfeito.


Depois vem o burlesco da venda em leilão, no La maison de mezzo-prezzo, e o final, genial, de um humor extraordinário, interpretado por rapazes e raparigas em fardas escolares de saias plissadas, em Bongo bongo nageel, uma dança atávica e agressiva, absolutamente entusiasmante, rematada pelo Mr Pnut goes to the big top.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

E Viva o Romantismo

Realidade II

Em Portugal está a verificar-se uma "tentacular expansão da influência partidária na ocupação do Estado e na articulação com interesses da economia privada", alertou a Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) num comunicado emitido ontem.
A organização considera que se "sente hoje na sociedade portuguesa um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional" e que irá emergir mais cedo ou mais tarde numa "crise social de contornos difíceis de prever".
Esse mal-estar deve-se a "sinais de degradação da qualidade cívica", como a "degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários", a "combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma Justiça ineficaz" e o aumento da "criminalidade violenta" e do "sentimento de insegurança entre os cidadãos", referem.
Para a estrutura, a "combinação" entre uma "comunicação social sensacionalista" e uma "Justiça ineficaz" traduz-se num "estado de suspeição generalizada sobre a classe política", que leva ao afastamento de "muitas pessoas sérias e competentes da política, empobrecendo-a".