quinta-feira, 29 de maio de 2008

A Classe média encarcerada

por Helena Garrido
A subida do preço dos combustíveis pode transformar-se no “buzinão” do Governo PS. Tal como Cavaco Silva quando enfrentou o protesto pela subida das portagens na ponte 25 de Abril, José Sócrates pouca responsabilidade tem na crise que se aprofunda em Portugal.
Mas tal como Cavaco Silva, José Sócrates corre o risco de não compreender o que se está a passar, corre o risco de rejeitar a realidade.
Combustíveis mais caros, alimentação com preços em alta, o crédito da casa a pesar mais, o salário sem aumentar e o emprego, que hoje há, amanhã pode já não existir... É esta, infelizmente, a vida que actualmente enfrentam muitas famílias em Portugal, mas também noutros países europeus como em Espanha e França.
Na altura do protesto na ponte 25 de Abril, José Pacheco Pereira escreveu um texto notável descrevendo o terrível quotidiano de quem se deslocava diariamente, do outro lado do rio Tejo, para o trabalho. Estávamos a entrar na crise de 1993. E a ponte foi a gota de água que fez transbordar o copo.
A gota de água, hoje, pode ser a subida dos preços dos combustíveis ou um qualquer outro acontecimento.
É sempre um perigo comparar crises. O presente parece-nos sempre pior que o passado. Mas, mesmo assim, vale a pena arriscar e pensar no quotidiano que hoje enfrenta a classe média portuguesa. Um exercício fundamental para evitar erros que provoquem a explosão social que se está a arriscar e para a qual Mário Soares alertou.
Hoje, uma família de classe média - ainda mais até que em 1993 - vive nos subúrbios, em casas grandes, com pelo menos dois carros e tem de ter os filhos, pelo menos numa parte do tempo, numa escola privada.
Porque vive longe do trabalho, os transportes pesam no seu orçamento. Terá de comprar um dos mais caros passes sociais ou se trabalha sem horário de saída - como acontece frequentemente - tem de andar de carro. E os combustíveis estão cada vez mais caros.
Porque se deixou iludir, pela sensação de enriquecimento que lhe deu a rápida descida das taxas de juro e pelas sedutoras propostas dos bancos, comprou uma casa que hoje se revela demasiado cara. E deixou-se embalar na compra de bons carros - muitas vezes com reforço da hipoteca da casa - e no crédito para ir de férias ao Brasil ou à República Dominicana ou para outros consumos. Por tudo isto, e porque de repente as taxas de juro subiram, vê subir a sua factura com a casa e os carros.
De repente, a mesma família também descobre que pode ficar sem emprego, mesmo que trabalhe no Estado. Que se ficar desempregado o subsídio será mais curto. Que se ficar doente vai pagar mais pelos cuidados de saúde. Que corre o risco de ter uma pensão de reforma miserável se não começar a poupar... E quando está perante essa dura realidade, as taxas de juro continuam a subir, não consegue vender a casa cara para comprar outra mais barata, a água, luz e gás encarecem, a conta do supermercado aumenta e o preço dos combustíveis dispara.
É esta, hoje, a vida de muitas famílias da classe média, encarceradas em escollhas erradas, ditadas pela perspectiva de uma rápida prosperidade que afinal não chegou.
É esta realidade que o Governo tem de aceitar que existe. E é sobre esta complicada realidade que é preciso olhar. Para pensar no que é possível fazer para evitar o pior, a instabilidade social. Não é fácil.

in Jornal de Negócios



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